domingo, 18 de fevereiro de 2018

ORGANIZANDO UMA COLEÇÃO DE PLANTAS – PARTE III – O MAPA DO TESOURO



Acima - Vista ao entardecer do Jardim Fitogeográfico


Tudo bem. Você acompanhou nossas sugestões de como “dar entrada” de uma nova planta em sua coleção; e depois de como manter suas plantas no lugar onde você mora, ou trabalha (se for uma instituição). Viu como organizar o cadastro de suas joias botânicas (postagem - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2017/12/organizando-uma-colecao-de-plantas.html ), numerando-as e catalogando-as, para que nunca mais se percam os preciosos dados e a história de cada plantinha. Depois, conheceu a maneira como mantemos as plantas aqui no Jardim Fitogeográfico (postagem - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2018/02/organizando-uma-colecao-de-plantas.html), onde temos como objetivo, além de acompanhar as espécies, individualmente, a contínua observação de como interagem com o meio, em cópias jardinoculturais de seus habitats naturais. Mas, deve estar se indagando: - Como vou localizar minhas joias botânicas, no meio desses jardins?

Que tal conhecer nossa metodologia? Devo adiantar que, em vista de minha natureza artística, você não encontrará aqui aqueles incríveis infográficos, muito menos recomendações de softwares avançados, baseados em complexos sistemas computacionais. Não, aqui no Jardim Fitogeográfico, você observará a mais fundamental aplicação da arte na ciência. Aliás, deixem-me dizer: nada tenho contra a modernidade da informática. Mas, por essência, valorizo a ARTE e prometo que ainda lhes vou explicar isso melhor, numa outra postagem, na qual falarei sobre ARTE, CIÊNCIA E PAISAGEM.

AS PLANTAS NA ESTUFA: Já falei, anteriormente, vão de etiquetas e simples conferência, de tempos em tempos, nada mais. Só reforço a ideia de que suas etiquetas sejam rigorosamente acompanhadas, para evitar equívocos com trocas acidentais de identidades ou perdas de etiquetas. No mais, cada um poderá desenvolver seus próprios sistemas e materiais.

AS PLANTAS NOS CANTEIROS E JARDINS: Lembram-se daqueles canteiros, que mostramos aqui, na postagem anterior? Então, imagine como é que a gente consegue saber qual planta é qual, em meio a tanta diversidade? Pois bem, a cada cerca de dois anos, dependendo do andamento das coisas, realizamos um meticuloso recadastramento dos canteiros, conferindo se as plantas ainda estão vivas (usualmente estão!) e, em determinados casos, transferindo-as para outros canteiros, onde encontrarão melhores condições para cada espécie. São feitos croquis e tiradas fotos, registrando a condição naquele instante, seguindo-se a elaboração de desenhos em planta-baixa, não necessariamente em escala definida. Esses desenhos trazem a localização de cada espécie, acompanhada de seu nome e numeração na coleção.

Ao longo do tempo, havendo alterações nesta localização ou até mesmo retirada ou morte de exemplares, são efetuadas anotações, que são averbadas nos desenhos, ou mesmo anotadas na listagem geral. Assim, quando chegar a época de novo recadastramento (o que está ocorrendo exatamente agora, no Jardim Fitogeográfico), essas eventuais alterações serão consideradas, na elaboração de novos croquis e desenhos.

TODOS OS CANTEIROS E JARDINS SÃO FOTOGRAFADOS, POR OCASIÃO DO RECADASTRAMENTO, GERANDO REGISTRO DE SUA SITUAÇÃO E FACILITANDO A LOCALIZAÇÃO DAS PLANTAS.

Veja adiante exemplos de canteiros cadastrados no JARDIM FITOGEOGRÁFICO, em acordo com a metodologia descrita:


Acima - planta esquemática de um canteiro do Jardim Fitogeográfico, segundo cadastro recente
Abaixo - o mesmo jardim, em fotografia atualizada


A Seguir - A mesma sequência desenho-planta-baixa / fotografia de outro canteiro - o Canteiro Sudoeste




AS PLANTAS NO ARBORETO: Na postagem – A Floresta Recuperada do Jardim Fitogeográfico (link - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/10/a-floresta-recuperada-do-jardim.html), você poderá conferir a origem do arboreto, que nada mais era, em 2008, que um capinzal, com algumas poucas árvores espontâneas, na parte posterior de nossa residência, onde está situado o projeto do Jardim Fitogeográfico. Hoje, forma uma bela floresta, comportando grande parte da coleção de bromélias e outras plantas epífitas. Existem aí DOIS SISTEMAS DE CONTROLE, que se interconectam: 1) CADASTRO DE ÁRVORES-SUPORTE (FORÓFITOS) ; 2) CADASTRO DOS CAMINHOS, no qual são registrados tanto a posição das árvores-suporte numeradas, quanto as plantas encanteiradas no solo, ao longo das trilhas.

Assim como ocorre no caso dos canteiros, anteriormente referidos, tudo isso é registrado em fotografias, para ajudar no cruzamento de dados, que permitirá melhor localização e controle das plantas. Veja a seguir exemplos de como são feitos o registro das árvores-suporte e dos caminhos em geral.


Acima - croquis cadastral da árvore-suporte 07 (A07)
Abaixo - imagem recente deste forófito A07 - uma pitangueira, aliás, excelente árvore-suporte



Adiante - sequência similar, que mostra as árvores-suporte A22 e A23, uma aroeirinha e uma capororoca, respectivamente, com suas hóspedes bromélias e orquídeas




Abaixo, exemplo de cadastro de um trecho da Aleia Ivo Penna (nome dado em homenagem ao arquiteto-botânico Ivo de Azevedo Penna, grande amigo, falecido há pouco tempo)




Você poderá eleger seu próprio sistema de organização, ou criar você mesmo, de acordo com suas habilidades e seu conhecimento. Mas, nunca se esqueça da importância que sua coleção poderá ter para a ciência e a cultura. Já vi inúmeras coleções desaparecerem, até mesmo as minhas! A perda é inegável, para a natureza, porque as plantas deixaram de estar nos habitats, para desempenhar suas funções ecológicas; e para a cultura e ciência, porque o conhecimento não deixou nada para as futuras gerações. Então, cuide bem de suas plantas e de sua coleção.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

ORGANIZANDO UMA COLEÇÃO DE PLANTAS – PARTE II: MANTENDO SUAS PLANTAS




Canteiro Sudoeste do Setor Muro Dianteiro do Jardim Fitogeográfico, em Petrópolis, Rio de Janeiro


Na postagem anterior – ORGANIZANDO UMA COLEÇÃO DE PLANTAS – PARTE I: CADASTRANDO EXEMPLARES (POSTAGEM: http://orlandograeff.blogspot.com.br/2017/12/organizando-uma-colecao-de-plantas.html  ) – mostramos a você como fazer para cadastrar as plantas obtidas, de forma a tornar mais organizada e cientificamente válida sua coleção. Falamos sobre numeração das plantas e sua indexação, de modo a jamais perder as informações fundamentais sobre a espécie que entrou em seu valioso acervo.

Lembre-se de que recomendamos que suas coletas na natureza, se forem realmente necessárias, não contribuam para o desaparecimento das espécies, que representam justamente aquilo que você mais ama. Prefira extrair-lhes um propágulo (uma ponta, offshot ou broto lateral), evitando sempre arrancar plantas únicas, em flores ou frutos, para permitir que elas possam de multiplicar em seu meio. Não arranque ou extraia plantas para vender ou fornecer a terceiros; não leve mais que o necessário para seu posterior cultivo e identificação na coleção; se possível, sendo habilitado para isso, proceda à coleta de um ramo fértil (galho florido) e sua posterior herborização, para depósito num herbário de instituição científica; faça boas fotografias e anote tudo o que disser respeito às condições ecológicas da população dessa planta e da comunidade vegetal em que vive.

TUDO ISSO SERÁ MUITO MAIS IMPORTANTE PARA A CIÊNCIA DO QUE A MERA POSSE DA PLANTA, QUE SOMENTE SATISFARÁ SUA VAIDADE DE COLECIONADOR.

Bem, uma vez tendo obtido sua planta – E TORÇO PARA QUE TENHA PREFERIDO GANHÁ-LA OU ADQUIRI-LA POR MEIOS LEGAIS – será hora de escolher a forma como ela será mantida em sua coleção. Você poderá cultivá-las em vasos ou potes, em local apropriado (uma estufa ou casa de vegetação, por exemplo); ou poderá mantê-las em canteiros, ou amarradas às árvores, se forem epífitas; ou entremeadas a pedras ou tocos, se forem plantas saxícolas; ou ainda mesmo afixá-las a superfícies de rochas, se forem plantas rupícolas. Mas, espere aí, o que são plantas epífitas, rupícolas ou saxícolas?

EPÍFITAS: plantas que vegetam agarradas aos galhos ou troncos de outras plantas (principalmente árvores). Usualmente, não são parasíticas, ou seja, apenas utilizam esses locais para atingir a luz e buscar nutrientes, a partir da poeira atmosférica e/ou aerossóis naturais. Orquídeas e bromélias são as mais famosas. Mas, há aráceas, cactáceas, begoniáceas, gesneriáceas, enfim diversas outras que podem mostrar hábitos epífitas, ou epifíticos.

Acima – bromélia Aechmea distichantha vegetando como epífita, na floresta mista de araucárias, em Campos do Jordão, SP


RUPÍCOLAS: plantas que crescem sobre as pedras, utilizando-as exatamente para a mesma finalidade que vimos nas epífitas.

Acima – bromélias Tillandsia tenuifolia com hábitos rupícolas ou litofíticos, num afloramento de rocha granítica, em Milagres, na Bahia



SAXÍCOLAS: embora muito se confundam com as RUPÍCOLAS, as plantas saxícolas vegetam ENTRE pedras, ou depósitos de solos rochosos, metendo suas raízes de entremeio aos blocos e o material terrosos ali depositado.




Acima – belas plantas de Dyckia sp. (Bromeliaceae) crescendo em ambiente saxícola, na Serra Azul, Barra do Garças, Mato Grosso

Então, conhecendo os ambientes em que suas plantas podem crescer na natureza, além do próprio solo, de forma geral, como você acha que seria interessante mantê-las, em sua coleção? Bem, já mencionamos os próprios vasos, de modo geral, que você poderá manter em estufas, ou locais com microclima adequado e semelhante àquele em que elas vegeta, na natureza. Mas, no caso de nosso projeto do JARDIM FITOGEOGRÁFICO, em que tentamos investigar e reproduzir as relações ecológicas das plantas, nos ecossistemas, optamos por outros dois modos de manter as plantas, além é claro da estufa.

CANTEIROS E JARDINS DE ÁREAS CAMPESTRES OU ABERTAS:

São aqueles nos quais cultivamos as plantas provenientes de campos rupestres, campos de altitude, restingas e vegetações de natureza rupestre. São geralmente BROMÉLIAS, ORQUÍDEAS, CACTÁCEAS, ARÁCEAS (principalmente dos gêneros Philodendron e Anthurium) e, em alguns casos, de VELOSIÁCEAS. Praticamente todas essas plantas são provenientes de ambientes extremamente iluminados e arejados, onde formam complexas comunidades botânicas, em que tomam parte plantas terrestres, tais como CLUSIÁCEAS, MORÁCEAS, MIRTÁCEAS e outras arvoretas e arbustos muito tolerantes às condições extremas desses ecossistemas. Nesses canteiros buscamos imitar as paisagens naturais, aprendendo muito com isso sobre as relações entre essas plantas, assim como à própria horticultura a elas relacionada.

VEJA A SEGUIR ALGUNS DOS CANTEIROS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO:







O ARBORETO:

Grande parte das plantas da coleção do JARDIM FITOGEOGRÁFICO pertencem às famílias botânicas BROMELIACEAE e ORCHIDACEAE, caracterizando-se por espécies fundamentalmente epífitas, embora muitas delas apresentem hábitos alternativos, sendo também encontradas no solo, ou nas rochas. Assim, ao mesmo tempo em que reflorestamos uma área de quase 6.000m2, na encosta abaixo da residência, além de mais algumas centenas, numa área de reserva florestal lindeira, começamos a cultivar nossas plantas diretamente nos troncos e galhos das árvores nativas pré-existentes e de algumas daquelas que plantamos. Esta área, cortada por algumas centenas de metros de trilhas e aleias, é chamada de ARBORETO.

O cultivo de plantas no ARBORETO é complexo e trabalhoso, principalmente por causa do contínuo crescimento das árvores-suporte, assim como de outras tantas, que surgem de forma espontânea, produto da regeneração da flora local. Essa gradual evolução do stand florestal determina alteração constante do mapa de sombras e da microclimatologia, ocasionando consequentes mudanças nas condições de cada espécie. Mas, de modo geral, os resultados têm sido gratificantes, ajudando a mostrar de que forma essas plantas se adaptam à complexidade natural de seus ecossistemas. Enfim, é um maravilhoso desafio.

OBSERVE COMO SÃO MANTIDAS AS PLANTAS EPÍFITAS, NO ARBORETO, ASSIM COMO AS TERRESTRES DE HÁBITOS FLORESTAIS:






MAS, CUIDADO! NÃO É APROPRIADO INSERIR ESPÉCIES EXÓTICAS OU ESTRANHAS À FLORA LOCAL, QUANDO VOCÊ TIVER UMA FLORESTA NATIVA CONSERVADA! Elas poderão invadir o restante da mata e concorrer com as plantas nativas, fazendo-as desaparecer. Em nosso caso, o JARDIM FITOGEOGRÁFICO, assim como a reserva florestal lindeira, representam fragmento ressurgente de vegetação, em área isolada das demais florestas, onde somente havia antes pastagens e capoeiras.

Em nossa próxima postagem, vamos comentar o que fazemos para ORGANIZAR A COLEÇÃO, sem perder a identidade e a localização de nossas tantas plantas



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ORGANIZANDO UMA COLEÇÃO DE PLANTAS – PARTE I: CADASTRANDO EXEMPLARES


Canteiro 02 do Setor Muro Dianteiro Sudoeste do Jardim Fitogeográfico, em Petrópolis, Rio de Janeiro


Você também é um amante de plantas? Tem espaço em sua casa? Coleciona plantas? Muito provavelmente, se você está lendo meu texto, será este o caso. Sim, pois a maior parte dos meus amigos da internet, ou representa pesquisadores, ou amantes de plantas, muito embora vinhos também façam parte dos interesses comuns com muitos deles. Então, se você já é um colecionador experiente, talvez pegue algumas dicas nesta postagem; se está começando, ou quer melhorar o nível da coleção, aproveite um pouco da minha experiência, para organizar suas plantas.

Antes de mais nada, é necessário avaliar os propósitos de sua coleção. Pode ser que você apenas goste de juntar plantas, aqui ou ali, levando-as para seu espaço e cultivando-as com carinho, para enfeitar o ambiente. Mas, posso apostar que não! Você é antes de tudo um COLECIONADOR! Colecionaria selos, se fosse o caso; juntaria vinhos, se os apreciasse; enfim, nada de mais, as pessoas gostam de colecionar coisas, é muito bom. Frederico Carlos Hoehne, um dos mais importantes naturalistas do Século XX, afirmava que “todo bom menino começa a colecionar coisas, quando começa a se interessar pelo mundo”. Não fui eu quem disse! Foi Hoehne: COLECIONAR FAZ BEM!

Assim, se você está querendo organizar sua coleção de plantas, é sinal claro de que o interesse botânico surgiu em você e chegou a hora de saber mais sobre cada um dos itens que você juntou; e mais ainda sobre aqueles outros que pretende arrumar por aí. Então, é hora de focar e organizar sua coleção. Se você gosta das plantas que coleciona, deve ter em mente, acima de tudo, que os objetos de seu desejo e devoção precisam ser mais conhecidos, protegidos e até propagados, para que não desapareçam. Sua coleção deve estar apta ao estudo. Pode ser que apenas você se interesse por essas plantas, sendo assim razoável que se torne fácil consultar os dados sobre elas. Mas, é muito possível que ela passe a representar interesse para pesquisadores e estudiosos. Então, é bom que tome alguns cuidados, a saber.

Obtendo Plantas:
Se você coletou uma planta na natureza, e espero que tenha cuidado para apenas retirar um propágulo, ou somente uma amostra, preservando o restante da população, deve anotar cuidadosamente o lugar onde a encontrou (coordenadas geográficas, dados sobre o habitat, forma de crescimento etc.), além de tirar boas fotos da população natural. Uma boa etiqueta ajudará a organizar as plantinhas que conseguiu, até que vão para seu cultivo. A identidade da planta é seu dado mais importante e não poderá ser perdida jamais. Eu mesmo, por força de inúmeras mudanças de endereço, perdi diversas identidades de plantas e hoje olho para elas, desapontado por não poder mais resgatar tão importante informação.

Acima – Orlando Graeff, no início dos anos 1980, no orquidário da Reserva Natural da Fazenda Ipanema, no Mato Grosso, coleção completamente desaparecida, anos depois – perdas irreparáveis para a cultura e a ciência

Cadastrando sua Planta:
Assim como nós temos ID e CPF, as plantas deverão receber um número de identificação, que jamais será mudado. O nome dela é menos importante do que essa numeração, que será indexada a uma ficha, ou listagem. Há quem defenda até que cada indivíduo seja cadastrado com um número, exclusivamente. Se você andou apanhando plantas demais (o que espero não ser o caso), realmente deverá cadastrá-las individualmente, mesmo que se pareçam muito. A MORFOLOGIA É UMA ARMADILHA e é bastante comum que duas ou mais de suas plantas, que você pensava se tratarem da mesma coisa, se revelem espécies diferentes. Então, fica a seu critério essa escolha. Especialmente bromélias podem te pregar este tipo de peça, assim, CUIDADO!

O número da planta não mudará nunca mais! Isso é fundamental. Não se esqueça: há números de sobra, até o infinito. Então, se você coletou uma planta, ou a recebeu de alguém, não importa, atribua-lhe um número, faça sua ficha e, mesmo que ela morra, ou desapareça, não mais utilize este número. Se conseguir outra “igual”, confira-lhe um novo número. Alguém poderá, um dia, realizar um trabalho científico sobre sua plantinha, quem sabe até uma espécie nova. Então, ele citará o material examinado, acompanhado do número de sua coleção. Isso não poderá mudar, sob o risco de colocar por terra todo um trabalho de pesquisa.

Se você conhecer minha bromélia Alcantarea vinicolor, cadastrada sob o número 342, saberá que foi coletada em Pedra Azul, no Espírito Santo, na Década de 1990, pelo naturalista Pedro Nahoum, tendo sido cedido a mim um exemplar, em janeiro de 2000. Daqui a dez anos, se você quiser saber mais sobre esta planta, bastará citar este número e pronto, você terá encontrado a mesma exata bromélia, sem riscos de engano... A não ser que ela tenha morrido! Bem, daí é outro assunto. Afinal, falamos de seres vivos e sobre isso, falaremos numa das próximas postagens.




Acima – A bromélia Alcantarea vinicolor, na coleção do Jardim Fitogeográfico, em Petrópolis

Como Cadastrar:

Enfim, sabendo as boas regras para dar entrada a uma planta em sua coleção organizada, você terá que saber como realizar este cadastro. Algumas coisas são realmente fundamentais e devem constar de seu cadastro: nome da planta (se você já souber); nome vulgar (se for conhecido); família botânica a que pertence; origem do seu exemplar; local de obtenção ou dados do local ou estabelecimento comercial, se tiver comprado; data de obtenção; e as observações gerais sobre a planta, que poderão relacionar dados geográficos, hábito da planta etc. Essa listagem poderá ser feita num programa ou aplicativo específico, ou simplesmente num texto de Word, como é efetuado aqui, no Jardim Fitogeográfico, há muitos anos.

Seja lá como o fizer, tome um imenso cuidado: faça backups regularmente e, se possível, imprima em papel, guardando em local apropriado. Como exemplo de uma ficha de planta, posso oferecer o seguinte:

443 – Bromelia horstii Werner Rauh – Família Bromeliaceae
Origem: Jaciara, Mato Grosso;
Data de Obtenção: 1999, durante viagem à região do Balneário da Cachoeira da Fumaça, juntamente com Luiz Campos Filho;
Observações: Planta extremamente agressiva e guarnecida de espinhos, desenvolvendo intumescimento, na base do caule, que pode permanecer como órgão de sobrevivência, no ambiente pedregoso (saxícola), no qual a planta vive, sendo comuns os incêndios florestais. Produz vistosas inflorescências, com lindas flores violáceas, sobre brácteas rosadas.

Essa planta foi encontrada por nós (o saudoso Luiz Campos Filho – que seria nosso Diretor Administrativo, na Sociedade Brasileira de Bromélias-SBBr, entre 2001 e 2003), enquanto investigávamos a natureza de uma bela região da borda da Serra de São Vicente, no Mato Grosso, já próximo ao Pantanal, onde seria desenvolvido um projeto turístico. Os dados sobre a planta constam da ficha, tendo sido tiradas muitas fotos, que ajudaram na identificação da espécie, feita pelo grande naturalista Eddie Esteves.

Adiante – Bromelia horstii, no habitat, em Mato Grosso (foto em filme negativo), e suas flores, em cultivo, anos depois, na coleção do Jardim Fitogeográfico





Se você tem iniciação botânica, na área de Taxonomia, também poderá coletar material para fazer uma EXSICATA, ou seja, uma amostra da planta seca, para depósito num herbário de sua confiança. Esse procedimento é ainda mais importante do que a coleta de material vivo, para compor sua coleção, pois poderá conferir validade científica para futuras listagens de flora, assim como para a descoberta de novas espécies. Mas, isso requer conhecimento e preparo técnico prático, que não é objeto de nossa conversa de hoje. Então, vamos lá: nada de malbaratar sua expedição, ou sua nova aquisição de plantas. Cadastre acertadamente, para que a ciência tire merecido proveito de sua coleção!


Acima – Canteiro 01 do Setor Muro Dianteiro Sudoeste, no JARDIM FITOGEOGRÁFICO

PRÓXIMA POSTAGEM: MANTENDO SUA PLANTA NA COLEÇÃO

Sugestões de leitura neste blog:


E se todos fizessem isso? Coleta ou Extrativismo? Uma Ameaça às Plantas Brasileiras - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – NEOREGELIA MACWILLIAMSII vs. N. COMPACTA

Falando esses dias sobre as “armadilhas da morfologia”, durante uma palestra sobre vegetações brasileiras, no 68º Congresso Nacional de Botânica, no Rio de Janeiro, referi os ensinamentos do amigo Gustavo Martinelli, um dos mais brilhantes naturalistas que conheço: - Orlando, cuidado com a morfologia pura e simples das plantas! O que importa é conhece-las, para saber se são ou não são diferentes ou iguais!

Martinelli mostra, com imensa facilidade, em face dos mais recentes conhecimentos e avanços da filogenia de grupos, o quanto a Botânica se equivocou, até hoje, ao aproximar e aparentar plantas morfologicamente similares, agrupando-as em famílias e gêneros, por vezes espécies iguais, levando em conta meramente sua parecença física. De fato, famílias inteiras de plantas têm sido movidas e alteradas, deixando para trás essas impressões artificiais e adotando o verdadeiro conhecimento de sua biologia e de sua história evolutiva.

Bem, sabemos que a ciência, de modo geral, está eivada de artificialismos, até porque é o homem que a faz, somos nós que observamos a natureza e, portanto, será sempre à luz de NOSSOS conhecimentos que faremos nossas classificações e agrupamentos daquilo que observamos: plantas, bichos, paisagens botânicas e a Fitogeografia, afinal. Então, não podemos também apenas reclamar daqueles que, outrora, se dedicaram a classificar e organizar o que viam, para nos deixar seu precioso legado.

Também devemos lembrar da genialidade e da capacidade de observação empírica de grandes gênios, a começar por Darwin, que sintetizou sua irretocável Teoria da Evolução das Espécies, quase que simplesmente a partir de suas observações e reflexões, pouco mais tendo à mão, naqueles tempos, que lupas e cadernetas de campo. Sob tal aspecto, até pelo objeto principal desta postagem do blog, devo remeter ao meu querido tutor bromeliológico Ivo Penna, que nos deixou recentemente, que referia, por seu turno, o grande professor Edmundo Pereira, com quem trabalhara, por muitos anos e que lhe ensinara um método valioso, na análise das bromélias: “tem que observar o jeitão da planta!”, afirmava Pereira, como método mais importante de investigação de plantas que vinham da natureza e eram estudadas.

Ivo Penna, certa vez, me chamou a observar a imensa diferença entre duas espécies de bromélias das restingas fluminenses, que a jardinocultura e até mesmo colecionadores reputavam espécie única, sob a denominação de Neoregelia compacta. De muito fácil cultivo e então abundantes nas áreas silvestres do Rio de Janeiro, essas bromélias eram massivamente coletadas, para compor jardins residenciais, em todos os cantos. Assim com as bromélias-imperiais da Serra Fluminense (Alcantarea imperialis), as “neoregélias” não faltavam nos viveiros do Rio. Só que, poucos notavam, havia ali na verdade DUAS PLANTAS DIFERENTES, morfologicamente parecidas, mas com hábitos e biologias completamente diversos uma da outra: Neoregelia compacta e Neoregelia macwilliamsii.

A vocês leitores, faço hoje o mesmo que fez o saudoso Ivo Penna, ao me mostrar, lado a lado, essas duas plantas em flores, para que eu apurasse meu senso de observação e constatasse o quanto diferiam uma da outra, embora exibissem morfologia tão similar, quando vistas nos cenários de cultivo. Ambas são plantas de farto crescimento lateral – estoloníferas – e se espalham de modo muito parecido, recobrindo grande área, em curto espaço de tempo. Ao observá-las na natureza, contudo, poderemos constatá-las ocupando nichos ecologicamente diferentes, árvores-suporte (forófitos) distintas e microambientes específicos, havendo certa variação na preferência pela iluminação e proximidade da influência salina do oceano.

Vejam então, a seguir, essas duas plantas da flora fluminense, em flores, no JARDIM FITOGEOGRÁFICO, que foi concebido exatamente para esta finalidade: cultivar as plantas da natureza brasileira, buscando a recriação de seus ambientes originais:

A Seguir - Neoregelia compacta (Mez) L. B. Smith e suas flores de coloração levemente violeta




Adiante – Neoregelia macwilliamsii L. B. Smith e suas flores esbranquiçadas e com forma diversa daquela de N. compacta






segunda-feira, 1 de maio de 2017

Peverella – Na trilha dos vinhos laranja da Era dos Ventos

parreiral de uvas Peverella da Era dos Ventos

Você se acostumou a diferenciar vinícolas-boutique daquelas grandes empresas engarrafadoras. Você certamente consegue discernir entre um vinho branco, um tinto e um rosê. Mas, quando você descobre o projeto Era dos Ventos, uma vinícola-poesia, no interior de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, você percebe que existe mais entre o campo e sua taça, do que prevê qualquer filosofia enológica. Ao deparar com os mágicos Peverella que ali se vinifica, então, você vai adentrar nova escala de cores e sensações, muito além daquelas que até então conhecia.

Luis Henrique Zanini, poeta-enólogo da Era dos Ventos, chama seus vinhos Peverella de vinhos laranja, introduzindo conceito que você somente conseguirá desvendar à luz da arte. Na arte da poesia, Zanini te encantará, ao manejar habilidosamente as palavras ligadas ao amor, à sensibilidade, à terra e aos vinhos. Quanto a estes, o jovem artista do vinho lançou mão de toda essa sensibilidade, para nos brindar com essa poesia enológica, personificada no incrível Peverella alaranjado.

Desde 2007, quando Zanini se uniu a outro talentoso artífice do vinho – Álvaro Escher – para criar o selo Era dos Ventos, tomei conhecimento dos finíssimos Merlot, que passaram a produzir, em seu tugúrio secreto do Caminho das Pedras. Esses tintos extremamente complexos são produzidos a partir de velhas vinhas redescobertas longe do circuito biotecnológico do Vale dos Vinhedos, situado na mesma região. Não saem todos os anos, é claro! A filosofia Era dos Ventos, fundamentada nas técnicas francesas de fermentação natural, em locais primitivos, onde imperam condições pretéritas de vinificação, sem o concurso de modernas tecnologias, remete necessariamente às artes enológicas do passado. O primeiro Merlot que experimentei da Era dos Ventos fora prensado e misturado sob os pés dos pequenos filhos de Zanini, hoje já um belo casal de jovens. Tenho a fotografia até hoje, em meu caderno de vinhos.

O projeto do Peverella nasceu na redescoberta de castas brancas, se é que assim podemos chama-las, muito bem escondidas, em meio a velhos vinhedos dos Caminhos de Pedra, estrategicamente distantes da fúria varietal, que grassava no Vale dos Vinhedos, já então dominado pela corrida tecnológica determinada pela sua condição de denominação de origem. Por lá, imperava a busca frenética pelos melhores clones, pelos mais produtivos recortes de terreno e pelo domínio das mais avançadas técnicas de vinificação industrial – afinal, era necessário suprir imensos mercados, merecidamente conquistados pelos laboriosos wine-makers de Bento Gonçalves. Ali, nas colinas basálticas a leste de Bento, contudo, a escolha era outra.

Essas variedades “perdidas” de uvas italianas se escondiam misteriosamente, entre velhos vinhedos artesanais, outrora explorados para fabrico de vinhos rústicos, usualmente consumidos nas residências dos descendentes de imigrantes italianos. Vegetavam misturadas, em meio a outras uvas diversas, sem que fossem notadas. Muitas delas eram centenárias parreiras, ou pés-francos, propagados pelas mãos puras dos pequenos agricultores, sem terem recebido fertilizantes ou defensivos sintéticos, ao longo de décadas. Em meio a elas, lá estavam os pés da preciosa Peverella, que Zanini e Álvaro foram buscar, com seus olhos poéticos.

Assim como nas demais variedades que compõem a grade Era dos Ventos, a Peverella foi catalogada, tanto nos vinhedos próprios do projeto, quanto nalguns lotes ainda em mãos de antigas famílias. A essas alturas, a variedade hortícola Peverella estava em desaparecimento. A dupla passou a acompanhar sua produção, desde a emissão de brotos, florescimento e frutificação, passando pelo seu desenvolvimento, período em que se determinava se os lotes seriam ou não capazes de originar os vinhos especiais que deles se esperava. Desde então, diversas safras nada resultaram e seguiram para fazer sucos ou vinhos de garrafão, os quais confesso que ainda assim adoraria ter experimentado. As melhores safras, aquelas que beiravam a perfeição, seguiam para o porão da Era dos Ventos, onde se lhes extraía seu melhor néctar, enquanto Zanini rabiscava suas poesias, nas paredes grossas da cantina.

Desde então, o processo tem se aperfeiçoado, porém, dentro da estrita filosofia de seu fundamentalismo enológico. Os velhos barris de carvalho guardam preciosidades que tive oportunidade de testar, junto com Zanini, neste outono, tais como uma safra de 2011, que ainda “dorme” em suas barricas, levando ao extremo as experiências da Era dos Ventos. Numa barrica reciclada de velhas madeiras de ipê, resgatado de antigos madeiramentos, jaz uma mágica partida de Peverella 2014, que revela aroma que remete às florestas semideciduais do Centro-Oeste do Brasil, sem que se possa explicar de onde vem essa misteriosa sensação. Tudo isso, contudo, se dá no plano da alquimia enológica singular e exclusiva dos jovens fazedores de vinhos, sem a incorporação de qualquer tecnologia sintética.

Para não se dizer que a dupla não lança mão da tecnologia agronômica, a que sou tão afeto, por força de minha formação, conheci um precioso lote de videiras Peverella que foi salvo de um centenário e decadente parreiral, num local próximo, que seria erradicado por seu proprietário: “estavam morrendo” teria afirmado seu antigo dono! Pois Zanini recorreu à coleta de material vegetativo dessas plantas e as enxertou sobre porta-enxertos adequados e salvou o velho e precioso patrimônio genético, que agora produz suas melhores partidas de vinhos laranja.

Os vinhos Peverella da Era dos Ventos são densos, embora isso não lhes determine corpo exagerado. Por não serem filtrados, conservam o volume das frutas que lhes originam. A coloração, já foi dito, beira o âmbar, direcionando para o laranja ou dourado, dependendo da safra e da idade. Trazem um retrogosto mineral único e sem similares a mim conhecidos. Você será capaz de afirmar estar bebendo um Peverella, em qualquer teste cego de que tomar parte! Quando novos, refrescam ao primeiro contato e devem mesmo ser bebidos bem frios, embora a temperatura nas barricas estivesse perfeitamente propícia à degustação. Os mais velhos já perdiam um pouco a fruta pura e simples e se revestiam de notas complexas que puxavam para a mineralidade que referi.


Depois dessa visita, em que fui guiado pelo maestro de vinhos Zanini, prometi a mim mesmo que vou acompanhar mais detidamente a evolução dos Peverella da Era dos Ventos, tanto quanto o fazia com seus tintos, que adoram longas guardas, na escuridão quieta de nossas adegas. Acompanhe um pouco desta visita, através das imagens comentadas a seguir. Boas degustações a todos.

acima - Planta de uva Peverella, nas vinhas da Era dos Ventos

acima - A variedade Marselan, que vem produzindo excelentes tintos na Era dos Ventos

acima - Plantas da variedade Merlot, que produz alguns dos mais valiosos tintos do projeto

A seguir - O outono chega, nos parreirais da Era dos Ventos



Abaixo - O solo litólico de basalto da Formação serra Geral domina os vinhedos da Era dos Ventos, sendo comum o gravatá (Eryngium horridum - Apiaceae = Umbelliferae), com suas folhas agressivamente espinescentes. Essa condição é determinante para o terroir local


acima - A liliácea Lilium regale é planta importada, mas invade lindamente o entremeio dos pomares


acima - Luis Henrique Zanini explica a Orlando Graeff como conduz seus vinhedos, na direção de seus melhores vinhos

Acima - Lindas margaridas ajudam a revestir o solo dos vinhedos, que jamais conhecem capinas ou revolvimento, sendo possível caracterizar esses pomares como um autêntico plantio-direto

acima - Uvas Teróldego, outra variedade tinta que vai sobressaindo, na busca de novos vinhos

abaixo - L. H. Zanini percorre seus pomares de Teróldego na Era dos Ventos


acima e abaixo - Paisagens fundamentais, na Era dos Ventos


adiante - Conheça um pouco da paisagem interna do projeto Era dos Ventos - vinícola-poesia:







acima - Um dos belos rótulos dos vinhos Era dos Ventos
abaixo - Zanini busca atingir o estado da arte e da poesia, com sua criação enológica da Era dos Ventos


acima - Resultados inequívocos do projeto Era dos Ventos

a seguir - Ingredientes diários do trabalho, no "atelier" Era dos Ventos



acima - O autor deste blog exibe um pouco dos vinhos laranja da Era dos Ventos, sob a luz difusa do local de sua criação

acima - Aguarde! Estamos trabalhando no projeto Era dos Ventos