domingo, 19 de fevereiro de 2017

Chegando à velha SANGA da Reserva Natural da Fazenda Ipanema

O nome vem do termo “sangra d’água”, ou sangradouro, que é um pequeno curso de rio, que dá vazão às águas de determinada área alagadiça. Os gaúchos adotam esse termo – sanga – exatamente como uma corruptela da denominação original, nascida em tempos imemoriais. Meu saudoso pai, que era gaúcho nativo da área central do estado, ao deparar com o diminuto e cristalino riacho, que lhe mostrei em meio à floresta-galeria da Fazenda Ipanema, no início dos anos 1980, imediatamente o caracterizou desta forma, remetendo à sua memória atávica: SANGA.

Desde então, a sanga d’água da Fazenda Ipanema passou a me atrair, inicialmente, como manancial fundamental de meu acampamento rústico, durante aquela década de 1980: na sanga, eu tomava banho, me dessedentava, conseguia água para cozinhar. Ao longo dos anos 1990, estando longe do Mato Grosso, o caminho que conduzia à sanga foi lentamente desaparecendo, em meio à floresta viçosa, que retomava espaço. Recentemente, com o desenvolvimento do projeto da Reserva Natural da Fazenda Ipanema, com novo planejamento de manejo conservacionista e científico, comecei a rastrear e reabilitar a trilha que conduz ao riachinho de meus vinte e poucos anos: a Trilha da Sanga.


Neste domingo, dia 19 de fevereiro de 2017, depois de mais de vinte anos escondida sob a selva, a Trilha da Sanga foi completamente restaurada e pude rever o recanto que tanto me valeu, desde os anos 1980, com suas águas absolutamente cristalinas, a correr depressa, sobre fundo arenoso alvo e em meio a velhas e grossas raízes de jequitibás e magnólias. A emoção foi inevitável e não deixei de comemorar, sorvendo goles fartos de água pura, tomados diretamente da velha sanga. Foi um trabalho extenuante, mas proveitoso, pois marcou a primeira meta cumprida, no objetivo maior da Reserva Natural da Fazenda Ipanema, que é o estabelecimento de um manejo integrado entre visitação e pesquisa, neste precioso conjunto de ecossistemas ribeirinhos, ligado ao rio das Mortes e ao Cerrado.

Acima - Dichorisandra pubescens (Commelinaceae), na borda da floresta-galeria

Acima - Macaco-prego, na floresta que circunda a Trilha da Sanga

Acima - Costus arabicus (Costaceae), no sub-bosque da floresta-galeria, na Trilha da Sanga

Acima - Imenso jequitibá-vermelho (Cariniana rubra - Lecythidaceae) da floresta-galeria, bem ao lado da sanga da Fazenda Ipanema

Acima - O autor Orlando Graeff posando ao pé do imenso jequitibá, que abriga exemplar de Monstera adansonii (Araceae), em seu tronco

Acima - Felicidade em rever essas águas cristalinas, que centralizam a floresta-galeria da Reserva, depois de tantos anos e tanto esforço


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

OBSERVANDO AVES NO JARDIM FITOGEOGRÁFICO


Colibri (Chlorostibon lucidus) forrageando nas flores da bromélia Dyckia alba, do Rio Grande do Sul, na coleção de plantas do JARDIM FITOGEOGRÁFICO

Na última postagem do blog (link - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/12/observando-aves-para-conservar-natureza.html ), relatei sobre a RPPN Graziela Maciel Barroso, contando um pouco de sua história e de como a OBSERVAÇÃO DE AVES vem prometendo resgatar as possibilidades de uso público da unidade. Nesta publicação, resolvi contar um pouco sobre a relação das plantas do JARDIM FITOGEOGRÁFICO com as aves. Aliás, há muito mais no projeto destes jardins do que simplesmente a flora, no que concerne às aves: muitos elementos paisagísticos foram concebidos para atraí-las.

Sobre o JARDIM FITOGEOGRÁFICO, muito já se falou, aqui no blog. Numa antiga postagem (link -  http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), contei sobre a origem do Jardim Fitogeográfico, que chamava, então, de TEMPLO FITOGEOGRÁFICO. O nome, decidi muda-lo, para afastar um pouco minha ciência da metafísica, embora as tenha meio próximas, em meu íntimo. Mas, como sou antes um cientista, nada mais apropriado que me manter na seara naturalista – JARDIM FITOGEOGRÁFICO acabou sendo o nome do projeto, desde então.


Acima – imagem-satélite da área do Jardim Fitogeográfico, em 2007, antes de ser iniciado o projeto
Abaixo – outra imagem do mesmo local, em 2015, já com as florestas em estágio avançado de recuperação



Acima – Outrora área aberta, a floresta do Jardim Fitogeográfico contrasta com terrenos lindeiros, nos quais os gramados dominam

Com a recente visita da equipe técnica do CONSÓRCIO PASSARINHO, à RPPN Graziela Maciel Barroso, fui também brindado por uma esticada do grupo, até aqui, no JARDIM FITOGEOGRÁFICO. Tive oportunidade de mostrar um pouquinho do que venho realizando por aqui, desde 2009: os ambientes que simulam vegetações campestres ou rochosas, onde são mantidas as espécies mais afeitas à luz solar direta; a estufa de plantas, onde mantenho as plantas mais sensíveis e intolerantes especialmente ao frio (que ocorre aqui em Petrópolis); e, por fim, a floresta recuperada (ver link - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/10/a-floresta-recuperada-do-jardim.html), onde a vegetação de floresta semidecidual se regenera e que abriga grande variedade de plantas epifíticas (aquelas que vivem agarradas aos galhos e troncos).

O CONSÓRCIO PASSARINHO é responsável pela atualização dos Planos de Manejo das RPPNs contempladas pelo programa de fortalecimento, financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Sua equipe conta com Biólogos das áreas botânicas e ornitológicas (dedicadas às aves). Sua visita, na qual avistamos diversas aves, serviu para catalisar meu interesse pelas aves que aqui frequentam, às quais dedicava não muito mais que minha curiosidade ocasional. Bem, sendo tão comum o encontro com essas joias voadoras, no JARDIM FITOGEOGRÁFICO, pensei, nada melhor que realizar um ligeiro inventário de tudo que já vi pousar por aqui, nos últimos tempos.

Abaixo – a visita do pessoal do CONSÓRCIO PASSARINHO ao Jardim Fitogeográfico, em dezembro de 2016



Mas, essa coisa do Birdwatching é mesmo um vício e agora compreendo porque tanta gente se dedica a isso, adquirindo equipamentos especializados e gastando tanto tempo nas florestas e campos, esperando para encontrar pássaros e outras aves, que abundam no Brasil. Temos tudo para brindar os aficionados com avistamentos, seja em áreas silvestres, ou até urbanas. Minha amiga Inêz Raguenet, que reside em Curitiba, numa área bastante central, tem conseguido esplêndidos resultados, numa área aos fundos de sua residência, de onde despacha fotos e vídeos das aves que lhe visitam a casa. Aqui, no JARDIM FITOGEOGRÁFICO, minha catalogação preliminar apontou nada menos que SESSENTA E TRÊS ESPÉCIES, sem contar algumas outras que foram expurgadas da lista (como os urubus e andorinhas), além de muitas que ainda não consegui identificar.

Quando elaborei o projeto paisagístico da residência, que abriga o JARDIM FITOGEOGRÁFICO (ou vice-versa!), inseri diversas espécies de árvores e plantas, na ambientação, que eram atrativas de aves. A coleção de bromélias e orquídeas, por si somente, já é especialmente relacionável aos pássaros, que lhes visitam para polinizar e comer frutos (dos quais carregam as preciosas sementes). Mas, não deixei de inserir elementos físicos dedicados às aves: a Fonte da Musa, por exemplo, foi criteriosamente planejada para receber as aves, para seus necessários banhos, quando fazem sua higiene e refazem sua proteção oleosa das penas. Com um espelho d’água suspenso, com 5cm de profundidade, a Fonte da Musa permite o banho seguro de todos os pássaros, embora muitos prefiram se lavar na bacia que a musa segura, sobre seu ventre desnudo e de onde verte água, dia e noite.



Acima – desenho que originou o lago da Fonte da Musa
Abaixo – aspecto da Fonte da Musa, inserida no cenário local



Acima – canário-da-terra se banha na Fonte da Musa

A Seguir – “praia” congestionada, nos horários de grande movimento




Já tivemos ocasião, na qual DEZ ESPÉCIES de pássaros aguardavam a vez, para se banhar na Fonte da Musa (fora o número de aves, dentro de cada espécie!). Há outros lagos, além da floresta, que hoje atrai espécies silvestres, que não se arriscam fora dela. O CONSÓRCIO PASSARINHO e seus integrantes conseguiram aliciar mais um observador de aves, pois parece mesmo ser caminho sem volta. A RPPN Graziela Maciel Barroso conta com florestas de altitude, muito bem conservadas, onde torço muito para que seja implantado sistema de trilhas e refúgios apropriado. Mas, percebi uma coisa a mais, que se promete bastante importante, para a conservação da natureza, no local: o desesnvolvimento de outros “jardins fitogeográficos”, ou projetos similares, em residências e terrenos ociosos, servirá para incrementar imensamente a avifauna de Petrópolis, integrando-se ao manejo da RPPN.

A Seguir – ninho com ovos, no JARDIM FITOGEOGRÁFICO



Acima – filhotes do colibri besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostibon lucidus), no Jardim Fitogeográfico

Sonho ambicioso? Não creio. Pelo que aprendi, depois da visita do CONSÓRCIO PASSARINHO, não há caminho mais producente para reaproximar os homens da natureza, que observando suas aves tão variadas, belas e canoras! Viva o Birdwatching! Viva a RPPN Graziela Maciel Barroso! Viva o JARDIM FITOGEOGRÁFICO!

A Seguir – flagrantes da bela e já rara águia-cinzenta (Urubitinga coronata) realizando sobrevoo do JARDIM FITOGEOGRÁFICO. Essa ave ameaçada já deu ares de sua graça em ao menos duas ocasiões



 A Seguir – canário-da-terra (Sicalis flaveola) são numerosos, na área do Jardim Fitogeográfico, chegando seus bandos a mais de 25 indivíduos, com variadas formas, associadas à idade e sexo






 joão-de-barro

Acima – o joão-de-barro (Furnarius rufus)é o pássaro mais respeitado, no Jardim Fitogeográfico, a despeito de seu porte: quando se zanga, põe todos os demais a voar para longe

Acima – sabiá-do-campo (Mimus saturninus) forrageando num camboatá (Cupania vernalis), na floresta recuperada


Acima – desenho da cambacica (Coereba flaveola), comum em nossos jardins, que compete lateralmente com os colibris, pelo néctar e insetos das flores



Acima – os arapaçus (família Dendrocolaptidae) são difíceis de identificar corretamente, embora diversos deles frequentem a floresta recuperada, em busca de insetos, nas cascas das árvores



A Seguir – os chopins (Gnorimopsar chopi) chegam aos bandos, entre a primavera e o verão, deliciando-nos com seu canto melodioso e suas peripécias, no Jardim Fitogeográfico




Acima – jacu (Penelope obscura) devorando frutinhos de camboatá, na floresta recuperada

Abaixo – maracanã (Primolius maracana), também a procura de camboatás



Acima – sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), sobre a Musa, após o banho

Acima - sabiá-poca (Turdus amaurochalinus) sobre Vitex magapotamica, na floresta recuperada

Abaixo - vista do setor de vegetações abertas do JARDIM FITOGEOGRÁFICO, com as montanhas da RPPN Graziela Maciel Barroso ao fundo














sábado, 31 de dezembro de 2016

OBSERVANDO AVES PARA CONSERVAR A NATUREZA DA RPPN GRAZIELA MACIEL BARROSO

a raríssima águia-cinzenta sobrevoando a RPPN Graziela Maciel Barroso


No final da Década de 1990, surgia o Condomínio Quinta do Lago, agregando conceito absolutamente novo, na conservação da natureza: ultrapassando a mera obrigação legal de manter uma reserva florestal (reserva legal), prevista em lei, os empreendedores decidiram ir além, muito além, espontaneamente reconhecendo suas reservas como RPPN – reserva particular do patrimônio natural. Deixava-se para trás a mera obrigação, para assumir-se a VONTADE de conservar a natureza.

Foi nessa época que conheci o local, convidado a trabalhar para o reconhecimento dessa RPPN e também para elaborar seu primeiro plano de manejo. Havia participado ativamente das discussões oficiais sobre RPPNs, que tomavam fôlego, trabalhando também para reconhecer outras importantes unidades, como a RPPN da Fazenda Limeira, na Serra da Maria Comprida. Mas, seria a primeira vez que um projeto de urbanismo incorporava essa política como parte de seus propósitos. RPPNs são autodeclaradas, e não atos impostos por decreto. É preciso que seus proprietários desejem cria-la, por moto próprio. Enfim, é necessário que acreditem na conservação da natureza.

A ideia foi “soprada” pela Bióloga Yara Valverde, que então chefiava a APA-Petrópolis (Área de Proteção Ambiental de Petrópolis – unidade de conservação federal, que engloba toda a região) e pela Dra. Denise Tarin, Promotora de Justiça, que coordenava a Procuradoria de Meio Ambiente de Petrópolis. Os empreendedores pegaram imediatamente, enxergando nisso, não apenas um nobre propósito, mas também poderosa ferramenta de marketing: como não se seduzir pela ideia de morar num condomínio e ajudar a proteger a natureza, as espécies da fauna e da flora?

Foram alguns anos de luta, por parte dos empreendedores, para ver definitivamente reconhecida sua RPPN. Não havia precedentes de reservas particulares do patrimônio natural reconhecidas por condomínios. Quando já seguia para definitiva homologação, pelo Poder Público, tivemos a ideia de mudar o nome da RPPN para RPPN Graziela Maciel Barroso, em justa homenagem à grande Botânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que morrera recentemente, tendo trabalhado duro, até seus 94 anos, naquela importante instituição científica. Ocorre que a RPPN Graziela Maciel Barroso protege duas espécies da flora criticamente ameaçadas – uma amarilidácea conhecida como rabo-de-galo (Worsleya procera); e uma minúscula bromélia litofítica que somente existe na localidade: Tillandsia grazielae.

A saudosa Dona Grazi, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

acima - Worsleya procera (Amaryllidaceae) - rabo-de-galo


acima - a minúscula bromélia litofítica Tillandsia grazielae



Ao publicar a nova espécie de bromélia, anos antes, os naturalistas Sucre e Braga lhe deram o nome específico em homenagem à Dra. Graziela Maciel Barroso. Pessoalmente, iniciara minha vida de naturalista e botânico, no meio da Década de 1970, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pelas mãos atenciosas da Dra. Grazi, como era conhecida. Somando-se a isso o fato que Tillandsia grazielae somente ocorre nas rochas que afloram na RPPN, pensamos todos em fazer esta oportuna homenagem. Nascia, no início dos anos 2000, a RPPN Graziela Maciel Barroso.

Elaboramos seu PLANO DE MANEJO, que foi um dos primeiros a serem apresentados, para este tipo de reserva - RPPN. Desde então, inúmeros programas de manejo, relacionados à RPPN Graziela Maciel Barroso, foram conduzidos pelos gestores do Condomínio: proteção e prevenção contra os temíveis incêndios criminosos, que anualmente assolam a região e sua vida silvestre; reflorestamentos e recuperação ambiental de margens de rios e encostas (inclusive fora dos limites formais da RPPN); projetos de educação e incentivo, em comunidades de entorno. Numa dessas comunidades carentes, o Vale do Carangola (antigamente conhecido como Sertão do Carangola), o Condomínio promoveu a regularização fundiária e delimitação de reserva florestal, em consórcio com a Prefeitura de Petrópolis, o que representou notável avanço social e ambiental.

Pedra da Maria Comprida - avistada da RPPN Graziela Maciel Barroso


acima - Pico do Seio de Vênus - ponto culminante da RPPN Graziela Maciel Barroso

Paulo Raguenet e Orlando Graeff, no alto da RPPN Graziela Maciel Barroso, no final dos anos noventa


Mas, havia um hiato fundamental, na história conservacionista da RPPN Graziela Maciel Barroso, algo que destoava imensamente dos principais propósitos deste tipo de unidade de conservação: NÃO HAVIA USO PÚBLICO! NÃO EXISTIA VISITAÇÃO DE SUAS ÁREAS SILVESTRES! O Plano de Manejo da reserva, elaborado no início da Década de 2000, apontava o desenvolvimento de um atraente sistema de trilhas ecológicas, que serviriam para a visitação contemplativa e interpretativa de belas linhas de cumeada, atravessando florestas conservadas, onde a flora e a fauna estariam protegidas.

A potencialidade existia, não somente pela presença de espécies raras da flora, citadas anteriormente, mas pela inegável beleza dos cenários, encontrados na zona de alta montanha, onde se destaca o pico do Seio de Vênus, histórico destino de naturalistas do Século XIX. Mas, havia algo no ar, desde o reconhecimento da RPPN, que indicava certa retração das tendências ecoturísticas na sociedade: mudanças filosóficas, que novamente distanciavam a sociedade da contemplação da natureza, se juntaram ao lamentável declínio econômico, que puxava junto o clima de insegurança urbana.

Assim, ao invés de se abrir à contemplação ambiental, a RPPN Graziela Maciel Barroso viveu certo isolamento, enquanto se fechava progressivamente a inter-relação entre ela e seu entorno: visitação poderia significar descontrole e insegurança, o que não deixava de ser verdade, haja vista a já referida queda de interesse das camadas mais cultas da sociedade pela contemplação da vida silvestre. Que tipo de visitantes esperar, em trilhas montanhosas, numa conjuntura como essa? Muitos belos projetos de ecoturismo, espalhados pelo Brasil, entraram em estagnação, alguns até em decadência, enquanto o interesse dos turistas se voltava mais às aventuras, esportes radicais, ou viagens internacionais.

Foi quando despontou, no horizonte, promissora tendência, que vem se transformando hoje numa onda muito positiva, que é a CONTEMPLAÇÃO DE AVES, mais conhecida pelo verbete em inglês: BIRDWATCHING. O Brasil – Petrópolis em destaque – integra uma série de destinos mundiais notáveis para a observação de aves, na natureza. Torna-se fácil entender a relação entre a biodiversidade de plantas, que aludíramos antes, e a riqueza de aves, que se observa em locais como a Floresta Atlântica – onde se encontra situada a RPPN Graziela Maciel Barroso.

O longo “inverno” de manejo ecoturístico da RPPN Graziela Maciel Barroso começou a ser rompido por esta “primavera” trazida pelo BIRDWATCHING, no final de 2016, quando fomos contatados pelo CONSÓRCIO PASSARINHO, integrado por duas empresas de consultoria ambiental, cuja missão consistia na implementação de um projeto de fortalecimento das RPPNs do Rio de Janeiro, tendo como mote fundamental exatamente o AVISTAMENTO DE AVES.  O referido projeto, com suporte do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e chancela do INEA (Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro), foca em duas frentes principais: atualização dos Planos de Manejo das RPPNs (elaboração, em casos de reservas que não contem com ele); publicação de um guia de RPPNs e Parques com potencial para BIRDWATCHING.

garça-real na RPPN Graziela Maciel Barroso

japu - ave comum na RPPN Graziela Maciel Barroso

maritaca consumindo jabuticabas na reserva


O apogeu deste projeto ocorrerá em meados deste novo ano – 2017 – quando está prevista a publicação do guia de unidades de conservação com potencial para avistamento de aves. O BIRDWATCHING é atividade que evidentemente transcende a diversão, uma vez que prevê uma densa iniciação, que atrai famílias inteiras. Curiosamente, as aves exercem atração da qual poucas pessoas conseguem escapar, depois de experimentar sua aproximação. Conheça um pouco mais sobre BIRDWATCHING no link - https://en.wikipedia.org/wiki/Birdwatching.

O site WIKIAVES (http://www.wikiaves.com.br/ ) é a bíblia dos observadores de aves, que se congregam em clubes ou associações. Uma das mais célebres é o COA – Clube dos Observadores de Aves, que congrega pessoas de todas as idades e gêneros (COA:http://www.coa-rj.com/ ). Evidentemente, o BIRDWATCHING não é atividade muito barata, uma vez que o aficionado acaba se obrigando a se equipar com binóculos, câmeras, lentes avançadas, livros e roupas. Além disso, os destinos não costumam ser muito fáceis de serem frequentados, seja pela distância, seja pela exclusividade. Mas, não restam dúvidas: é uma atividade geradora de importantes recursos, para as RPPNs, pousadas e parques que se dedicam a receber os observadores de aves.

A RPPN Graziela Maciel Barroso, por contar com excelente infraestrutura, vem participando dos estudos que atualizarão seu Plano de Manejo, mirando nesta promissora modalidade turística e cultural. Ainda há muito chão pela frente, bastante reflexão e discussão a ser feita, no ambiente condominal, de forma a ajustar pontos e estabelecer diretrizes. Mas, a semente foi plantada e, a julgar pela quantidade de aves, que habitam a reserva, sustentadas por sua natureza pujante, estamos diante de um ponto estratégico. Somente no projeto do JARDIM FITOGEOGRÁFICO, que todos conhecem bem, situado na RPPN Graziela Maciel Barroso e abrigando cerca de MIL ESPÉCIES DE PLANTAS, entre a coleção botânica e sua floresta recuperada, já foram catalogadas, de modo preliminar, mais de SESSENTA AVES diferentes. O que não esperar das florestas de altitude da RPPN?

acima - maracanãs na floresta recuperada do Jardim Fitogeográfico


colibri descansando na inflorescência de uma bromélia do Jardim Fitogeográfico


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A ORQUÍDEA EPIDENDRUM SECUNDUM


Epidendrum secundum

Existe um grupo curioso e intrigante de orquídeas, em nossa flora, que seguramente ainda comportaria muitos estudos taxonômicos: falamos da aliança que gira em torno de Epidendrum secundum. Já estivemos a mostrar uma linda espécie do JARDIM FITOGEOGRÁFICO, que é Epidendrum xanthinum (ver postagem - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/09/plantas-do-jardim-fitogeografico_19.html ), uma planta bastante comum na Serra do Mar, com flores amarelas, que bem ilustra essa pendência. Mas, há tantas outras nativas, além de uma série de cultivares hortícolas, que foram introduzidas no mercado de plantas ornamentais e ocorrem quase que espontaneamente, em jardins residenciais, e aumenta a confusão, toda vez em que as avistamos.

Nossa série de publicações não tem objetivos de complicação e preferimos simplesmente apresentar cada planta que mantemos em cultivo, deixando aos aficionados a tarefa árdua de se ver a braços com a questão. Epidendrum secundum já foi conhecida com diversos nomes, tais como Epidendrum ellipticum, E. crassifolium, E. elongatum, entre tantos outros, o que se deveu, sem qualquer sombra de dúvidas, às suas possíveis e usuais variações regionais, que simplesmente não sustentaram reconhecimento como espécies diferentes. Então, até segunda ordem, o táxon válido é mesmo Epidendrum secundum Jacq.


 Acima – Epidendrum secundum da Serra da Piedade, em Minas Gerais
Abaixo – Inflorescências de E. secundum das montanhas do Peru (Machu Pichu)


A planta pode ser encontrada numa grande variedade de condições de crescimento, assim como numa vasta área geográfica de ocorrência, que inclui desde a Floresta Atlântica, até países vizinhos, como Peru, onde ela ocorre na lendária cidade perdida de Machu Pichu. Seu modo preferencial de crescimento, contudo, é mesmo o saxícola – aquele em que a planta medra nas frestas de rochas, metendo suas raízes nos restos de folhas secas e detritos. Adora sol, luz solar direta, quando consegue emitir suas mais vistosas inflorescências, que também variam de cores, entre o róseo (mais comum) e tonalidades vináceas e até amareladas.

No JARDIM FITOGEOGRÁFICO, Epidendrum secundum praticamente se naturalizou e se propaga hoje por diversos cantos, aos quais chega, através de sementes, ou divisão de rebentos, que aparecem junto à inflorescência e emitem dali novas raízes.


Acima – Epidendrum secundum vegetando sobre muro de pedra, na coleção do JARDIM FITOGEOGRÁFICO. Note os rebentos, que surgem nas hastes das inflorescências, dali enraizando e se propagando

Abaixo – A orquídea empresta notável efeito ornamental, na Fonte da Musa do JARDIM FITOGEOGRÁFICO