domingo, 25 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – AECHMEA TOCANTINA


Inflorescência de Aechmea tocantina

Caminhando pelas florestas ciliares do rio das Mortes, em Mato Grosso, em meio às áreas protegidas da Reserva Natural da Fazenda Ipanema, em Primavera do Leste, você poderá se surpreender com uma medusa espinhenta, elevada a uns dois metros do solo, cujos cabelos não são exatamente serpentes, mas que surgem arrepiados, para todos os lados, sendo até mesmo difícil definir de onde partem, tamanho caos se apresenta. São as inúmeras rosetas foliares da bromélia Aechmea tocantina, que tomam conta do espaço originado por algumas forquilhas de uma arvoreta, espetada sobre uma discreta elevação do solo, em meio ao terreno alagadiço.

Essa bromélia agressiva possui rosetas tubulares e alongadas, com notável divergência entre o tamanho de suas folhas; algumas terminando de forma abrupta; outras se alongando e dobrando pendentes. O conjunto é guarnecido por densa cadeia de espinhos, que lhe valem boa defesa contra os inúmeros herbívoros de porte avantajado, que pastejam ao redor: veados, antas e até mesmo vacas desgarradas. Essas rosetas se dispersam no espaço, cada uma numa direção, emprestando aquele aspecto poético de medusa, de que falamos atrás.

Suas inflorescências são até discretas e pouco emergem do centro dessas longas e agressivas rosetas. Nesta época do ano, são mais comuns, embora surjam ocasionalmente, fora de época, como é hábito fenológico de diversas bromélias do Centro-Oeste. Dividem o ecossistema com pelo menos outras duas importantes bromélias epifíticas do gênero: Aechmea setigera e A. bromeliifolia, que ocupam posições diferentes, nas árvores-suporte.

Aechmea tocantina ocorre também na Floresta Amazônica e noutras formações abertas de Goiás e Tocantins (onde foi coletada a planta-tipo). Na expedição ao Salto Augusto, na divisa entre Mato Grosso e Amazonas, em 1998, encontramos grandes populações de Aechmea tocantina, vegetando diretamente sobre as rochas quentes e ensolaradas da monumental cachoeira, tendo elas adquirido tonalidade vinácea, para se defender daquelas duras condições amazônicas.


No Jardim Fitogeográfico, Aechmea tocantina vive sobre os galhos de um cróton (Croton cf. floribundus – família Euphorbiaceae), árvore de índole decídua, como muitas das hospedeiras naturais desta bromélia.


ilustração do autor, retratando o hábito geral de Aechmea tocantina

OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS? SOPRADORES DE FOLHAS VIRAM OBJETIVO PRINCIPAL, NOS JARDINS


Você já viu a figura do "prestador de serviços de jardinagem" moderno? Descolado, soprador nas costas e nenhuma, mas nenhuma habilidade com plantas!!



Quando era garoto, no auge dos anos de chumbo dos governos militares, acostumei-me a escutar meus amigos, ou alguns professores de esquerda (sim eles sempre existiram) dizer: “os fins justificam os meios”. Normalmente, esses exaltados “guerrilheiros de bancos acadêmicos” se referiam a determinados regimes políticos, em voga naqueles tempos, nos quais horrendas carnificinas se justificavam por suposto objetivo de “libertar os povos”, ou até mesmo de levarem a um suposto estado de bem estar social, a ser atingido, dali a algum tempo, onde “todos viveriam felizes, com a comida no prato, saúde, segurança etc.”

Embora não seja este o assunto desta postagem, nem preciso dizer aonde levou aquele “belo ideal”, que, aliás, andou meio em destaque, ou melhor, ainda anda, aqui na nossa América Tropical. Evidentemente, todas aquelas vidas foram perdidas em vão; toda aquela brutalidade, enaltecida como “solução” pelos arautos da extrema esquerda foi inútil. Ainda durante o Século XX, bem lá no começo, outras terríveis barbaridades foram cometidas, também com essa curiosa justificativa de que levariam a “nobres objetivos”, tais como a criação de uma humanidade racialmente pura, o que seria imensamente vantajoso.

Tomei emprestado um pouco de nossa história humana recente, apenas para verificar como o ser humano, em nome de finalidades utópicas e inatingíveis, costuma se apegar aos meios que imagina servirem a tal, quase sempre sucumbindo a eles, ou neles paralisando, sem jamais sequer chegar próximo aos tais FINS. Ou será que esses FINS, esses OBJETIVOS seriam realmente vantajosos? Bem, para concluir, com relação aos grandes temas históricos, bastaríamos fazer as perguntas certas: Será que realmente existiria um estado possível, na sociedade, em que todos fossem iguais, em que comessem as mesmas comidas, pensassem e falassem as mesmas coisas e, principalmente, que venerassem um mesmo líder? Será que a eugenia, ou seja, um conjunto idêntico de genes, numa população, seria vantajoso para o homem? Imaginem só todos sendo idênticos, por mais belos e inteligentes que fôssemos. Tremenda bobagem, não é?

Pois bem, devo agora usar este argumento contraditório, para expor um fenômeno tão mais prosaico, mas que mostra aspecto igualmente decepcionante, entre meus pares, meus semelhantes, não assim tão semelhantes, que é a mania de buscar paisagens urbanas assépticas, “limpas”, homogêneas e pasteurizadas. Todos querem ao seu redor imensos gramados idílicos e britânicos, ou até “melhor”: todos sonham com imensas áreas calçadas, pintadas e destituídas de “sujeiras”, entendendo-se como tais quaisquer folhas secas, galhos ou plantinhas “invasoras”, que, por ventura, tenham a audácia de brotar, nas frestas do cimento duro.

Será que esse é um ideal a ser perseguido, no paisagismo? Será isso vantajoso para o ser humano? Nada de moscas, mosquitos, aranhas, passarinhos, ouriços-cacheiros e outras “coisas inúteis e asquerosas”, que deus nem deveria ter criado? Ah, espere aí, desculpem: esquilinhos bonitinhos, coelhinhos peludos e outras coisas “fofas” são desejáveis, mesmo que ninguém imagine que viverão, em nossos bairros, sem toda a restante cadeia de vida que os suporta: OS ECOSSISTEMAS! Ok, se você pensa desta forma, nada a fazer. Pode parar a leitura e passar a outra postagem qualquer. Mas, se você é um desses que gosta de ver as fotos de plantas e paisagens que costumo veicular, em meus perfis da internet; ou aprecia as coisas que escrevo sobre a natureza tropical, em meus livros, então passemos à reflexão seguinte.

É claro que não existe a possibilidade de dar certo um suposto ambiente urbano ou periurbano, no qual se utilizem métodos assépticos e radicais, para o ordenamento e limpeza. Não temos dúvidas: ninguém deseja passear ou caminhar em ruas imundas, repletas de lixo, de qualquer natureza. Certamente, isso não corresponde ao ideal a ser perseguido e eu jamais defenderia condições de abandono às nossa ruas e parques, sequer aos quintais de nossas casas. Mas, o que dizer do COMPLETO ESQUECIMENTO DOS OBJETIVOS PAISAGÍSTICOS, QUE JUSTIFICAM NOSSAS METAS DE MANUTENÇÃO? Pois é bem isso o que ora ocorre e vou utilizar meu próprio condomínio, onde moro e mantenho meu Jardim Fitogeográfico, como estudo de caso, para que entendam minha total aversão ao ambiente criado.


Sequência de imagens de nossa casa, onde fica o Jardim Fitogeográfico, desde sua construção
A FINALIDADE SEMPRE FOI A NATUREZA

2008

2013

2016


Meu condomínio está situado num belo conjunto de montanhas da Serra dos Órgãos, em Petrópolis, num de seus setores de maior biodiversidade natural. A reserva florestal do nosso “bairro” foi transformada em RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), justamente por abrigar vegetações ameaçadas e, o que é ainda mais esplêndido, por proteger ao menos duas espécies criticamente em perigo de nossa flora: a minúscula bromélia litofítica Tillandsia grazielae; e a belíssima e singular amarilidácea Worsleya procera, conhecida como rabo-de-galo, mundialmente famosa, por sua arquitetura foliar única e suas esplêndidas flores violeta. Ele foi criado com todo cuidado, para que seu mapa de ocupação dos “lotes” não ferisse demasiadamente a paisagem e para que se visse interpenetrado por valiosos fragmentos de vegetação florestal nativa – Mata Atlântica.


Então, você imaginaria que as pessoas que procuram este lugar para morar, ou veranear, procuram exatamente este tipo de paisagem: florestas, árvores, ambientes ajardinados e biodiversos. Só que não! Na verdade, o que vem imperando, lamentavelmente, é justamente a estranha obsessão pela limpeza asséptica, a varrição absoluta de todo e qualquer “resíduo” produzido por esta natureza pródiga, que justificou, um dia, a implantação do condomínio. Certamente, isso é um equívoco e talvez essas pessoas mal saibam que estão cometendo tamanho exagero. Afinal, todos habitualmente estufam o peito, ao propagandear o condomínio que escolheram para sua “casa de campo” (termo sintomático): muita natureza, muito verde!

Claro que existe uma dramática defasagem entre o que os condôminos idealizam como “muita natureza” e aquilo que entendem como um ambiente limpo e organizado. Essa defasagem, infelizmente, reside na passiva rendição desses proprietários ao império dos prestadores de serviços (condomínio incluso), que “trabalham duro” para pôr em ordem as ruas e jardins. Assim, a imagem que lhes domina o imaginário é de um “exército de funcionários” atacando o inimigo maior, que é a “sujeira”. Mas, que sujeira é essa? Folhas secas? Algumas poucas folhas secas, caídas das árvores? Toda a força do condomínio e dos prestadores de serviços, então, se concentra em passar os dias inteiros manejando ruidosos sopradores de folhas, movidos a gasolina e óleo dois tempos – sim, aquele barulho de moto sem escapamento, que atormenta as ruas – para que não fique uma folhinha sequer sobre o chão, quando chegarem os veranistas.

Definitivamente transformados em manipuladores dessas máquinas infernais, coisa que parece enchê-los de orgulho, os outrora jardineiros se ocupam quase que exclusivamente de soprar, soprar, soprar e soprar, durante toda a semana, todos os dias, de manhã à noite. Afinal, jardinagem é para os fracos, devem pensar: ficar ali agachados, plantando e mantendo belas plantas, em jardins verdejantes, que dispensariam os tais sopradores, é coisa do passado, quando não havia tecnologia. Acomodado, o condomínio se acostumou com essa tarefa quase industrial, transformando-a num tipo de “orgulho institucional”, como se fosse uma moderna fazenda, na qual roncam os motores progressistas dos tratores. OS MEIOS OBSCURECEM OS FINS, numa inversão de objetivos totalmente danosa.

O triste resultado dessa priorização dos meios sobre os fins é que, tanto quanto nas medonhas passagens históricas e políticas citadas ao início do texto, esses fins jamais são atingidos, até porque não são atingíveis. Assim, em vez de passear nas ruas lindamente verdejantes, entre belas árvores, coletando frutinhos e flores no chão e observando centenas de pássaros a cantar, pulando de um galho a outro, tudo que se consegue, nos finais de semana – e somente neles – é caminhar sob sol escaldante, em ruas áridas e rigorosamente varridas, por entre rudimentos do que um dia foram gramados ou canteiros decadentes, que expõem o solo ressecado e estéril. Claro, aquilo que seria a tão valiosa matéria orgânica, que ajudaria a adubar os solos, foi radicalmente varrido pelos potentes e barulhentos sopradores, resultando naquela terra dura, compactada e desbotada.

ACIMA - Nossa rua, em 2008, antes de ser implantado o JARDIM FITOGEOGRÁFICO

ACIMA - O mesmo lugar, em 2014, com a coleção de plantas em pleno desenvolvimento

ACIMA - O Jardim Fitogeográfico HOJE, sopradores de folhas mantidos LONGE

Paralelamente, obcecados pela limpeza, nossos (ex)jardineiros-operadores-de-sopradores esqueceram de cultivar, de plantar, de adubar, cuidar dos jardins do condomínio. Com isso, cada vez mais, serão necessários mais e mais sopradores, nas mãos de mais e mais operadores-de-sopradores, e o mal se retroalimenta, fortalecendo os meios e esquecendo os fins. Talvez, um dia desses,  resolvamos asfaltar o condomínio e acabar de vez com suas árvores e florestas, para tornar mais “limpas” suas ruas e para que o vento empoeirado dos sopradores não mais encontre atrito nas anfractuosidades das pedras, dos paralelepípedos ou dos “matos sujos”. Tudo será tão mais fácil, então. Fico imaginando a razão para que alguém saia da cidade grande, para vir ao “império da Mata Atlântica” e das montanhas.

Mas, é bom que os leitores saibam: aqui no Jardim Fitogeográfico SOPRADOR NÃO ENTRA! Nossa matéria orgânica é TODA reprocessada e compostada (ver - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2011/04/reciclagem-e-desenvolvimento.html), para utilização como adubo, na floresta recuperada e nos jardins de plantas raras. Sem a barulhada infernal, que infelizmente nos atormenta, vinda das demais áreas, os pássaros encontram refúgio e cantam, cantam, cantam... Nidificam, também!


AQUI, NO JARDIM FITOGEOGRÁFICO, OS MEIOS SERVEM AOS FINS! Se a finalidade é a natureza, vamos respeitá-la! E, com ela, nossos ouvidos, nossos olhos e nossos pulmões, que óleo dois tempos e gasolina fedem à bessa!

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – ANANAS ANANASSOIDES


Ananas ananassoides - em flores

Quem conhece o Cerrado conhece bem essa planta – ananás, ou abacaxi-do-mato – que é uma bromélia, parente bastante próxima do abacaxi comum. Seu nome é Ananas ananassoides e ocorre em praticamente todo o perímetro do Cerrado. Pode-se dizer que é uma planta indicadora deste Bioma, embora estenda sua ocorrência por outros domínios de natureza: Pantanal, partes da Caatinga e até Chaco.

Na Reserva Particular da Fazenda Ipanema, em Primavera do Leste, estado do Mato Grosso, projeto ligado ao Jardim Fitogeográfico, Ananas ananassoides está presente, nos bem conservados fragmentos de cerrado stricto sensu. No ambiente natural, seus frutos perfumados atraem animais diversos, que devoram a polpa e largam a coroa de folhas, distante da planta-mãe, promovendo assim sua dispersão vegetativa. Esse fenômeno também ocorre nas plantas de ananás do Jardim Fitogeográfico, onde a planta ocupa setor mais seco da floresta recuperada (ver - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/09/quesnelia-arvensis-bromelia-da-floresta.html).


Os exemplares da coleção vieram de Humaitá, no Amazonas, enviados pelo nosso colaborador Sérgio Basso, há muitos anos, que os encontrou perto de valetas de drenagem agrícola e os remeteu, para cultivo e identificação. Você poderá encontrá-los em flores, ou frutos, em diversas épocas do ano. Mas, no final do inverno e início da primavera, eles são particularmente comuns.

Ananas ananassoides, no cerrado de Serranópolis, em Goiás

sábado, 24 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – VRIESEA INFLATA

Vriesea inflata

Nos anos 1990, durante o boom que consagrou as bromélias como as plantas mais desejadas, no Brasil, imensa quantidade de plantas foi extraída da natureza, para abastecer o mercado florescente de ornamentais. Algumas plantas extraídas da Floresta Atlântica ficaram famosas, ao serem massivamente oferecidas, nas margens das estradas, destaque para a subida da Serra de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Vriesea inflata era uma delas.

Conhecida vulgarmente como “bromélia-peixinho”, em virtude do curioso formato de suas inflorescências vistosas, Vriesea inflata era encontrada por todos os cantos, nas residências dos veranistas, ou de quem viajava entre o Rio de Janeiro e a Cidade Imperial. O epíteto de seu nome “INFLATA” diz respeito exatamente a esta forma singular da inflorescência: o conjunto de brácteas superpostas umas às outras, ao longo da haste, que formam compartimento inflado. Pressionada sob os dedos, essa inflorescência cede gentilmente, como um balão de borracha.

Vriesea inflata deixou de ser coletada pelos mateiros, na esteira da desejável chegada ao mercado das mais lindas bromélias cultivadas, que apresentavam melhores condições fitossanitárias e cores mais vistosas, além do preço bem mais competitivo. É assim que se combate a coleta criminosa de plantas: fornecendo ao mercado mercadorias confiáveis e belas, a preços razoáveis.


Ela habita os locais mais úmidos das íngremes encostas da Serra do Mar, em grandes altitudes. Provenientes de apreensões realizadas pelo extinto IEF (Instituto Estadual de Florestas do RJ), alguns exemplares vieram dar à coleção, naquela década, sendo hoje mantidas nas árvores do Jardim Fitogeográficos, muito próximo à sua área natural de ocorrência. A tendência é que se multipliquem por aí e repovoem as florestas próximas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – HYPTIDENDRON ASPERRIMUM



Hyptidendron asperrimum

A floresta do Jardim Fitogeográfico foi quase inteiramente reflorestada, pois pouco mais havia, em 2007, quando viemos residir no local, do que capim-braquiária, taquaras e algumas poucas arvoretas mirradas. Sobre este reflorestamento, falamos anteriormente, na postagem de 16 de setembro de 2016: http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/09/quesnelia-arvensis-bromelia-da-floresta.html . Bem, dentre essas “arvoretas mirradas”, havia algumas espécies interessantes, que ganharam viço, durante o trabalho de regeneração da floresta. Hyptidendron asperrimum (família Lamiaceae) era uma delas.

Trata-se de uma arvoreta característica das matinhas de encosta de altitude da Serra dos Órgãos, em sua vertente interiorana, onde predomina o clima estacionalmente seco de inverno. Ocorre em outras partes do Sudeste e até mesmo no Mato Grosso. Nos domínios das escarpas e vertentes voltadas ao Vale do Paraíba, costumam ocupar bases de paredões de pedra, ou florestas baixas dos topos de morros, onde os solos são fracos e muito drenados, situação mais ou menos do local onde estamos.

Hyptidendron asperrimum produz flores violeta, que surgem principalmente nesta época do ano – final de inverno a início de primavera. Junto com elas, vêm os pintassilgos (Carduelis magellanica), que são minúsculas joias cantarolantes, amarelo-ouro, matizadas de negro, que cantam maviosamente, enquanto forrageiam nessas flores, ocasionando lindo contraste.


É uma arvoreta baixa, de seus cinco metros, pouco mais, com tronco recoberto por espessa casca suberosa, como o são muitas árvores deste tipo de floresta. Por isso, presta-se razoavelmente bem para algumas bromélias, que foram afixadas nos troncos de alguns exemplares do Jardim Fitogeográfico. Plantas dos gêneros Vriesea, Aechmea e Quesnelia se deram bem neste tipo de suporte, embora exista risco de desplacamento ocasional, coisa usual em plantas de climas estacionais. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A ORQUÍDEA EPIDENDRUM XANTHINUM


Epidendrum xanthinum


No setor de ambientes abertos do Jardim Fitogeográfico ( http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), onde estão as espécies de campos rupestres, restingas e campos de altitude, uma planta vem se adaptando esplendidamente, chegando a formar grande touceiras, que florescem todos os anos: a orquídea Epidendrum xanthinum. Ela floresce principalmente nesta época do ano – entre final de inverno e início de primavera, embora seja rara uma época em que não mostra ao menos algumas flores.

O nome epíteto xanthinum diz respeito à sua coloração predominantemente amarela, podendo apresentar tonalidades douradas, até um pouco alaranjada. Ela pertence a um grupo de orquídeas bastante complexo em sua taxonomia, o que advém de sua morfologia extremamente convergente: é a aliança de Epidendrum secundum, cuja espécie mais famosa, que tipifica este grupo, comum em cultivo e nas paisagens de margens de estradas, exibe coloração rosada.

São plantas de crescimento ereto, aparentemente monopodial (que cresce apenas num eixo), embora ramifique intensamente, de forma lateral, o que termina por originar densas touceiras. Como é comum no grupo, frutifica intensamente, liberando milhares de sementes, que voejam com o vento e acabam germinando em vários outros locais.

Epidendrum xanthinum no Jardim Fitogeográfico


Na natureza, habitam afloramentos rochosos, em diversas altitudes, mas quase sempre nas cercanias de fios d’água, que escorrem pelas rochas e ajudam a formar núcleos de umidade, sempre com luz farta. Crescem nas margens de estradas, tolerando até as condições de rodovias movimentadas, onde abunda a poluição e o vento forte ocasionado pelos veículos. Em Petrópolis, pode ser admirada nas rochas que margeiam a movimentada BR040, juntamente com E. secundum.

domingo, 18 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A BROMÉLIA NEOREGELIA CORREIA-ARAUJOI


Quando fazia jardins, na Década de 1990, era a época de ouro das bromélias, no paisagismo. Foi um verdadeiro “boom” de plantas trazidas da natureza, para lotar os jardins com bromélias, as mais variadas, vindas dos mais diversos locais. O mercado não se importava com a matéria conservacionista. Bem, talvez isso não tenha mudado muito, embora já se tenha hoje a plena consciência de que a coleta de plantas, nos ecossistemas, representa atividade danosa e até virou crime, passível de prisão.

Paralelamente, os horticultores trataram de produzir esplêndidas cultivares de bromélias, com belas características, que não encontram rivais na natureza. Essa, na verdade, foi a grande solução para o grave problema da coleta criminosa de plantas, uma vez que ninguém trocaria essas plantas bem produzidas e com formas à beira da perfeição, por outras vindas das matas, com folhas rasgadas, manchadas e cheias de pragas e doenças. Ainda mais se o preço for competitivo.
Numa postagem anterior, deste blog ( http://orlandograeff.blogspot.com.br/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html   ), tratei da complexa questão da coleta criminosa de plantas na natureza e creio que a questão foi bem definida. Naquela ocasião, citei o fato que, durante muitos anos, nas minhas expedições pelas florestas e demais ecossistemas brasileiros, cheguei a coletar plantas, com o estrito objetivo da descoberta científica e investigação. Nestas oportunidades, cuidava muito para coletar apenas partes de plantas (fragmentos de propagação vegetativa ou sementes), ou mesmo seedlings ou indivíduos redundantes, em populações que poderiam absorver este impacto necessário.

Felizmente, a ciência e o conhecimento sobre a flora avançaram muito, havendo excelentes listagens de espécies, para quase todos os ecossistemas, dispensando a necessidade de coletas. Mas, como seria de esperar, grande parte das plantas que trouxe da natureza ainda vivem na coleção de plantas do Jardim Fitogeográfico, tendo até deixado incontáveis descendentes, como é o caso da vistosa bromélia Neoregelia correia-araujoi, que já foi muito comum, na região da Costa Verde, litoral sul do estado do Rio de Janeiro. Essa bromélia era intensamente coletada, nas florestas de Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty, sendo empurrada às vias da extinção, embora venha se recuperando muito rapidamente, em função de ser planta bastante prolífica, no seu habitat natural.

Neoregelia correia-araujoi vive hoje em algumas árvores do Jardim Fitogeográfico, principalmente no setor da floresta recuperada. Mas, também se adapta bem aos muros de pedra, onde se imita uma de suas formas bastante comuns de ocorrência, na região de origem: os topos dos grande matacões de pedra granítica, quase à beira do mar. Velhos muros de ruínas do Século XIX, assim como telhados de algumas residências, em Angra dos Reis e Paraty, também abrigam belos indivíduos da bromélia que chamávamos de “finger-nail-plant”, no meio jardinocultural, por parecer com unhas pintadas com esmalte vermelho.


Esta bela bromélia, com porte relativamente avantajado, é uma planta tanque-dependente (guarda água no imbricamento de suas folhas), cujas flores alvas emergem diretamente do pequeno lago de vida e são intensamente buscadas por colibris e abelhas brasileiras. Seus pequenos frutinhos são bagas adocicadas, que os pássaros procuram avidamente, tratando de espalhar a planta, nas outras árvores. A espécie, aliás, tem cultivo muito fácil, bastando coletar suas sementes e plantá-las em vasos coletivos. Milhares de plantas saíram de semeaduras de nossa coleção, nos anos 2000, para abastecer cultivos comerciais, tendo assim colaborado para evitar a coleta.

bromélia Neoregelia correia-araujoi